
Algumas crianças demoram mais para aprender a amarrar os cadarços, usar talheres, escrever, recortar, andar de bicicleta ou acompanhar uma atividade esportiva. Em muitos casos, essas dificuldades são interpretadas como desatenção ou até mesmo falta de esforço, mas nem sempre é assim.
A dispraxia, termo frequentemente utilizado para se referir ao Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC), pode afetar a forma como a criança planeja, organiza e realiza movimentos. Quando essas dificuldades interferem na rotina, na autonomia ou na participação escolar, é importante olhar para elas com atenção e acolhimento.
Segundo o CanChild Centre for Childhood Disability Research, a dispraxia afeta cerca de 5% a 6% dos alunos em idade escolar.
O que é dispraxia?
Associada a dificuldades de coordenação motora, a dispraxia pode se manifestar de diferentes maneiras:
- Algumas crianças apresentam maior obstáculo em movimentos finos, como escrever, desenhar, recortar ou manusear objetos pequenos.
- Outras têm problemas com atividades que exigem coordenação motora ampla, equilíbrio e organização dos movimentos, como correr, pular, subir escadas ou praticar esportes.
A dispraxia não está relacionada à inteligência. Uma pessoa pode apresentar dificuldades motoras e, ao mesmo tempo, ter facilidade para aprender, criar, resolver problemas e desenvolver diferentes talentos.
Quais são os sinais de dispraxia?
Os indícios podem aparecer ainda nos primeiros anos de vida, embora se tornem mais evidentes conforme aumentam as demandas de autonomia e aprendizagem.
De acordo com Sônia Regina Gheller Guill, terapeuta ocupacional e parceira do Instituto You.up, esses são alguns sinais mais perceptíveis de estudantes que têm dispraxia:
- Na escola: lentidão extrema para copiar a matéria do quadro, escrita ilegível ou com pressão inadequada no lápis (muito forte ou muito leve) e desorganização com o material escolar (perda de objetos, cadernos rasgados).
- Na educação física: dificuldade acentuada em jogos coletivos, falta de equilíbrio, dificuldades para correr, chutar, pular corda ou arremessar bolas, o que frequentemente gera isolamento ou recusa em participar das aulas de educação física.
- Nas tarefas escolares: dificuldade para abrir embalagens de lanche, usar a tesoura, amarrar os cadarços, abotoar o casaco ou manusear talheres no refeitório.
- Na navegação pelo espaço: esbarrões frequentes em mesas e colegas, quedas constantes e uma aparente falta de jeito ao andar pelos corredores.
Esses sinais, isoladamente, não significam que uma criança tenha dispraxia. O desenvolvimento infantil acontece em ritmos diferentes, e uma avaliação profissional é fundamental para compreender as causas das dificuldades e identificar as estratégias de apoio mais adequadas.
Como a dispraxia pode ser percebida na rotina escolar?
O ambiente escolar pode tornar algumas dificuldades mais perceptíveis porque reúne diversas atividades que exigem planejamento e coordenação motora.
Imagine uma criança que precisa copiar uma atividade do quadro. Enquanto o colega termina rapidamente, ela ainda está tentando organizar os movimentos necessários para escrever. Ou uma criança que evita participar da aula de educação física porque tem dificuldade para acompanhar jogos que envolvem correr, chutar ou lançar uma bola.
Em situações assim, é importante evitar interpretações como “ela não presta atenção”, “é preguiçosa” ou “não se esforça”. O apoio adequado pode fazer diferença no desempenho, na confiança e na participação da criança.
Leia mais: Dicas para organizar a rotina dos filhos
Como é feito o diagnóstico?
A avaliação considera o desenvolvimento, as dificuldades de coordenação e o impacto dessas questões nas atividades do cotidiano e na vida escolar. Também é necessário investigar outras condições que possam explicar os sinais apresentados.
O acompanhamento pode envolver diferentes profissionais, de acordo com as necessidades de cada criança. Entre eles estão pediatras, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, psicólogos e outros especialistas.
A escola também tem um papel importante nesse processo. Os professores convivem diariamente com o estudante e podem compartilhar informações relevantes sobre participação, desempenho e dificuldades em diferentes atividades.
Mais do que dar um nome às dificuldades, a avaliação deve contribuir para identificar quais apoios podem ajudar a criança a avançar.
Dispraxia tem tratamento?
Existem estratégias e intervenções que podem ajudar a criança a desenvolver habilidades, encontrar formas mais eficientes de realizar determinadas tarefas e ampliar sua autonomia.
O acompanhamento deve ser individualizado. Um aluno pode precisar de mais apoio para a escrita, enquanto outro pode ter como principal desafio a coordenação durante atividades físicas ou tarefas de autocuidado.
Uma das abordagens utilizadas é trabalhar diretamente as tarefas que representam desafios para a criança. Elas podem ser divididas em etapas menores, permitindo que a criança compreenda, pratique e aperfeiçoe cada parte do movimento.
Alguns ajustes também podem facilitar a realização das atividades, como:
- Utilizar adaptações que facilitem a pegada de lápis e canetas;
- Oferecer mais tempo para determinadas atividades;
- Permitir o uso de recursos digitais quando a escrita manual for uma barreira importante;
- Dividir tarefas complexas em pequenas etapas;
- Demonstrar uma atividade antes de pedir que a criança a realize;
- Oferecer oportunidades para praticar sem transformar o erro em motivo de constrangimento.
O objetivo é criar condições para que cada criança consiga participar e aprender.
Mais do que corrigir: compreender
Quando uma criança apresenta dificuldades motoras, a primeira reação dos adultos pode ser tentar corrigir aquilo que ela faz. Mas a pergunta pode ser outra: o que podemos mudar no ambiente para que essa criança consiga participar melhor?
A dispraxia pode tornar algumas tarefas mais trabalhosas, mas não define o potencial de uma pessoa. Com compreensão, estratégias adequadas e acompanhamento individualizado, é possível criar caminhos para que ela desenvolva habilidades, conquiste autonomia e participe das experiências de aprendizagem.

