
Entender como o cérebro aprende pode ajudar os educadores a olharem para cada estudante de forma mais ampla. Atenção, memória, emoções, experiências e relações fazem parte desse processo e mostram que aprender não é apenas receber e armazenar informações.
Durante o 4º Simpósio You.up, a professora doutora Marta Relvas falou sobre a relação entre neurociência e educação e reforçou a importância de aproximar o conhecimento sobre o cérebro da realidade da sala de aula.
“Não é a quantidade de neurônios que vai fazer diferença na inteligência ou nas habilidades, mas sim as conexões que você (educador) tem potência para criar, para fazer, para ser estimulado.”
Marta Relvas
Como neurociência e educação caminham juntas
A atenção é uma das condições importantes para que a aprendizagem aconteça, porém ela não existe de forma isolada. O estado emocional, o sono, o ambiente e as experiências vividas pelo aluno também podem interferir na forma como ele se envolve com uma atividade.
Como destaca Marta, cada criança chega à escola trazendo uma realidade diferente. Pode ter dormido mal, estar preocupada, cansada, agitada ou simplesmente estar enfrentando alguma dificuldade naquele dia.
“Nós, na escola, sabemos que somos sujeitos únicos e diversos.”
Marta Relvas
Essa perspectiva ajuda a compreender o motivo de uma mesma estratégia funcionar de maneira diferente para cada estudante. Observar essas particularidades não significa abrir mão do planejamento pedagógico, mas reconhecer que a aprendizagem acontece dentro de um contexto.
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O cérebro aprende usando as conexões
A aprendizagem envolve a construção e o fortalecimento de conexões. Por isso, estratégias que favorecem a retomada dos conteúdos ao longo do tempo, a recuperação de informações e a relação entre diferentes formas de representação podem contribuir para a aprendizagem.
Recomendações reunidas pelo What Works Clearinghouse, iniciativa do Institute of Education Sciences, incluem práticas como:
- Distribuir os momentos de estudo ao longo do tempo;
- Combinar representações gráficas e explicações verbais;
- Utilizar atividades que estimulem a recuperação de informações.
A memória também não está dissociada das condições em que a criança vive. Estudos mostram, por exemplo, uma relação entre sono e consolidação de memórias durante a infância e a adolescência.
Isso reforça uma ideia importante para a educação: aprender não depende apenas do conteúdo apresentado, mas também de como, quando e em quais condições ele é trabalhado.
Emoção, experiência e significado também fazem parte
O desenvolvimento e a aprendizagem não acontecem somente dentro do cérebro, mas nas interações que a criança estabelece com o ambiente, com outras pessoas e com as experiências que vivencia.
Nesse sentido, criar situações em que o estudante participe, experimente, faça relações e atribua significado ao que está aprendendo pode ser mais relevante do que simplesmente aumentar a quantidade de informações apresentadas.
O desenvolvimento de habilidades relacionadas à autorregulação e às funções executivas está associado à aprendizagem. Segundo o Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, essas experiências podem ser fortalecidas com interações e práticas adequadas ao desenvolvimento.
Arte também ensina
Ao falar sobre educação, Marta destaca o papel da arte e das experiências práticas. Música, leitura, dança e outras atividades podem criar oportunidades de participação e estimular diferentes formas de envolvimento com a aprendizagem.
“O professor precisa trabalhar com metodologias para uma prática de neurônios ativos. Nós queremos nossos estudantes protagonistas do seu processo de aprendizado.”
Marta Relvas
A ideia amplia o olhar sobre o papel da escola. Ensinar vai além de transmitir conteúdos, criando condições para que os alunos possam desenvolver conhecimentos, habilidades e relações com o mundo.
O papel do educador é observar possibilidades
Falar sobre neurociência e educação não envolve a busca por uma fórmula para ensinar melhor ou transformar cada descoberta sobre o cérebro em uma nova técnica pedagógica. O conhecimento científico pode, porém, ajudar educadores a compreender melhor os processos envolvidos na aprendizagem e a refletir sobre suas práticas.
Também pode reforçar algo que a experiência em sala de aula já demonstra: estudantes são diferentes, chegam com histórias distintas e podem precisar de novos caminhos para aprender.
Conhecer melhor o cérebro, nesse contexto, é mais uma ferramenta para olhar para a criança ou o adolescente em sua complexidade. E, a partir disso, construir experiências de aprendizagem que façam sentido para quem ensina e, principalmente, para quem aprende.

